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24.3.04

§ 21

Alberto Moravia, no romance A Atenção, captou um aspecto do Édipo Rei que o arguto Nietzsche me parece ter ignorado, n' A Origem da Tragédia, propositadamente (em nome da sua bela argumentação): o de que Édipo, sabendo que cometera um crime de sangue, sabendo que casara com a mulher de quem matara, o escondeu de si até à trágica revelação. Eu acrescentaria: Édipo é o homem que não quer ver.

Comete um crime de olhos bem abertos (não importa aqui se contra o pai – pois isso ele não sabia); casa, cego de paixão, com a rainha viúva (não importa aqui se era sua mãe – porque isso ele não sabia); e, quando toma conhecimento da «verdade trágica» – no plano ético menos grave que aquelas (verdades que secretamente o atormentariam) –, resolve cegar-se, uma vez mais «fugir da realidade».

Édipo é portanto o arquétipo da cobardia e não uma máscara do dionisíaco, como diz Nietzsche. A realidade (apolínea ou não) é crua, e os seus olhos evitaram essa luz dolorosa. Ao contrário do que diz Nietzsche, Édipo não simboliza o sim à vida tal como ela é, porque não a assume nunca – e muito menos no fim. A vida como ela é não é um destino – e, ainda que nada pudesse fazer mudar os acontecimentos de horror que os deuses lhe haviam destinado, ele poderia ainda despir-se e dizer: «aqui estou, sou este, sou isto». E poderia mais: enfrentar a verdade trágica de olhos bem abertos. Mas a «verdade trágica» é um efeito e a tragédia uma ficção – profunda sem dúvida, mas uma ficção. Enquanto homem, Édipo não soube ou não quis assumir os seus actos, e esse foi o seu genuíno drama.

Nota: Por uma questão de honestidade intelectual revelo que nunca li o romance de Moravia. Devo a ideia de partida para esta reflexão a Joel Costa na sua rubrica Questões de Moral, da Antena 2.

17.3.04

§ 20

Ser anti-dogmático pode constituir uma posição de um grande dogmatismo. Todo o saber se baseia numa convicção, ou é ele próprio uma convicção. Assim, para se ser «legitimamente» anti-dogmático é preciso, basicamente, que se não aceite que aquilo que é dito seja tal e qual. Mas aquilo que viermos a constatar também não é tal e qual. Nem isto.

§ 19

Em questões de grandeza, aplicar sempre a teoria da relatividade: ou a camisola encolheu, ou engordei. Mas talvez sejam possíveis outras hipóteses, e então mesmo a teoria da relatividade é insuficiente. (Dupla disjunção: vel/aut).

27.2.04

§ 18

Sentidos ao serviço da razão: os exemplos dados na Filosofia, o romance, todo o texto narrativo, etc..
Razão ao serviço dos sentidos: alguma poesia de Carlos de Oliveira, o sinestésico Messiaen, as Anotações de Rilke, as cenas fulgor da Llansol, etc..

25.2.04

§ 17

Adivinha as muitas folhas que não verá. Mas não as vê nesse saber antecipado.

«Chorar é um traço da sensibilidade - o outro afecta por dentro. Chorar é um traço na sensibilidade. Esse vinco desenha um eu diferente, como testemunha o Livro I de Os pensamentos para mim próprio, de Marco Aurélio. «De meu pai herdei», «de ti aprendi».

Chorar a perda de alguém, é o quê? Saudades do traço alheio, distúrbio no hábito? Choramos por nós, nesse acto, num movimento autofágico? Fazer um memorial alegre do outro, isso sim seria prolongá-lo. Mas até que ponto o traço é vívido?»

Adivinha as muitas folhas que não viu nesta reflexão. Mas nem assim as vê.

23.2.04

§ 16

Tantas vezes obrigaste a palavra silêncio a vir à boca que o espantaste.

19.2.04

§ 15

«Música pimba». Quem a ouve não exige qualidade musical, exige divertimento. A criticar, não devemos visar o fenómeno, mas a causa ou as causas do mesmo; neste caso, o tipo de exigência.

§ 14

Paradoxo de todo o misticismo, de toda a metafísica e de toda a teologia negativa: para falar do seu Espírito, do seu Inefável, do seu Uno, recorrem inevitavelmente a imagens sensíveis, muitas vezes sensuais e coloridas, a metáforas por vezes muito belas, cuja fonte está naquilo que recusam como verdadeiro. É uma agradável surpresa encontrar esta constante nos Upanishades, nos místicos cristãos (S. João da Cruz, Sta. Teresinha, Sta. Teresa de Ávila, etc.), em Platão (a sua alegoria é o cúmulo do paradoxo), e noutros. Talvez Espinosa e Buda se afastem um pouco desta generalização, mas esses parecem considerar que a verdade já lá está.

18.2.04

§ 13

Curiosamente, e não obstante a fragmentariedade do seu pensamento, reconheço em Nietzsche o último grande épico, a última voz altitonante. Em alguma coisa ele é do seu tempo e não é o extemporâneo precoce ou póstumo que sempre se afirmou. Mas está na fronteira. É último do seu tempo. O estrume do nosso. Morreu quando começava o século que agora acaba.(Escrito em 1997)

§ 12

Alberto Moravia, no romance A Atenção, captou um aspecto do Édipo Rei que o arguto Nietzsche me parece ter ignorado, na Origem da Tragédia, propositadamente (em nome da sua bela argumentação): o de que Édipo, sabendo que cometera um crime de sangue, sabendo que casara com a mulher de quem matara, o escondeu de si até à trágica revelação. Eu acrescentaria: Édipo é o homem que não quer ver.

Comete um crime de olhos bem abertos (não importa aqui se contra o pai – pois isso ele não sabia); casa, cego de paixão, com a rainha viúva (não importa aqui se era sua mãe –porque isso ele não sabia); e, quando toma conhecimento da «verdade trágica» – no plano ético menos grave que aquelas (verdades que secretamente o atormentariam) –, resolve cegar-se, uma vez mais «fugir da realidade».

Édipo é portanto o arquétipo da cobardia e não uma máscara do dionisíaco, como diz Nietzsche. A realidade (apolínea ou não) é crua, e os seus olhos evitaram essa luz dolorosa. Ao contrário do que diz Nietzsche, Édipo não simboliza o sim à vida tal como ela é, porque não a assume nunca – e muito menos no fim. A vida como ela é não é um destino – e, ainda que nada pudesse fazer mudar os acontecimentos de horror que os deuses lhe haviam destinado, ele poderia ainda despir-se e dizer: «aqui estou, sou este, sou isto». E poderia mais: enfrentar a verdade trágica de olhos bem abertos. Mas a «verdade trágica» é um efeito e a tragédia uma ficção – profunda sem dúvida, mas uma ficção. Enquanto homem, Édipo não soube ou não quis assumir os seus actos, e esse foi o seu genuíno drama.

Nota: Por uma questão de honestidade intelectual revelo que nunca li o romance de Moravia. Devo a ideia de partida para esta reflexão a Joel Costa na sua rubrica Questões de Moral, da Antena 2.

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